Amo-te "Vó"

Queria Tanto
“Pegar-te a mão…”
“será assim tão difícil de concretizar?”, li...
Com grande mágoa, respondo que sim
Porque pegar-lhe na mão, como quando eu era criança, e caminhar, caminhar até não poder mais das pernas, já não será possível…
Como ela adorava!
As pernas já não deixam.
Os vários problemas de coluna, já não deixam.
E agora, convenço-me, que a idade já não deixa!
Do alto dos seus 74 anos impera a sabedoria da mulher que, aos trinta e poucos anos, decidiu pegar nos trapos, levar os dois filhos pela mão e fugir do inimigo que partilhava a sua cama e que, diariamente e insistentemente, a mal tratava incluindo quando esperava o fruto de ambos, pois de amor só se fosse dela.
Desses mesmos 74 anos há a lucidez de que o cérebro já lhe prega as partidas que o corpo mais cedo começou a pregar. Há o olhar para os bisnetos com os mesmos olhos com que olhou para a neta. Há a preocupação em vê-los felizes.
E eu, como neta, já não consigo sorrir plenamente…
A vida foi-lhe madrasta, como a muitas mulheres da mesma geração
Houve toda uma luta e continua a haver
Quando olho e vejo que os passos são mais calmos, sem relógio para reger o tempo, e tempo? Mas que tempo? O compasso é feito a seu próprio passo…
Não se fecha em casa e teima em rumar para o centro da capital. Mas a viagem a pé, foi substituída por um qualquer lugar nos autocarros da Carris.
Não gosta de andar de metro. Não no de Lisboa. O de Paris não a amedrontava, nem o facto de não saber ler nem escrever.
O maior remorso? Não conseguir "unir" as letras, que conhecia (e ainda conhece) de cor, formando as tão cobiçadas palavras.
Inscreveu-se no curso de alfabetização “cedido” pela Câmara Municipal de Lisboa. Ainda assim, não conseguiria escrever as suas memórias.
Certo dia confessou-me que as queria muito transcrever para o papel.
Continuo a olhar para ela como a avó (mãe) que me deu a mão, quando me viu tão frágil, e me levou para terras, já dantes pisadas, da capital do amor…
Mas sinto, deveras, a minha impotência contra o tempo… o tempo que lhe rói os ossos… que lhe come as ideias… que lhe leva a alegria de viver e lhe dá, em troca, as rugas da alma os temores dos dias cada vez mais longos que começam a sobrar para as tarefas que tem a fazer…
Sim! Queria muito pegar-lhe na mão e não ouvir queixas de dores e desconfortos causados pelas muitas primaveras por que passou. Queria ouvir as bocas que “atirava” ligeira e alegremente. Queria vê-la a sorrir e a pregar as suas, tão célebres, partidas! Olha-la com os mesmos olhos de criança e vê-la como os meus filhos a vêem… da mesma forma que eu a vi quando a idade não decifrava a dor que a alma escondia…
Queria tanto pegar-te na mão… e dizer:
Amo-te “vó”!































