
Por vezes chamam-me utópica e já tenho ouvido este termo tantas vezes, a qualificar-me, que dou comigo a pensar.
Detesto hipocrisias, falsidades, cinismos e jamais irei dizer que alguns eurozitos ou a minha moradia, singela mas adorável, não me fazem falta. Faço muito mais, desta curta viagem, do que escravizar-me para poder ter algo muito mais palpável. É claro que cheguei a um nível em que me sinto “amparada” (e sempre á custa do meu esforço e do meu maior cúmplice) mas não é do palpável que quero falar até porque isso não nos traz qualquer ideia utópica.
Eu ainda gostava de descobrir a verdadeira origem dos pronomes possessivos que qualificam toda e qualquer palavra relacionada com matéria palpável:
O MEU carro…? A MINHA casa…?
Pior ainda: O MEU namorado…? A MINHA namorada…? (ok agora usa-se: dama) O MEU marido…? A MINHA mulher…? (se preferirem: esposa)
Não consigo entender o porquê destas afirmações, ditas correctas, porque a meu ver, ou entender, estão completamente erradas.
Se alguma coisa temos, se algo possuímos, não estará de todo no mundo físico. Ora vejamos:
A MINHA casa…? Não será ela a minha última morada.
O MEU carro…? Num futuro mais próximo terei outro (lá estou eu nos possessivos: CONDUZIREI outro)
O MEU namorado…? O MEU marido…? (o mesmo se aplica ás namoradas e mulheres – esposas). Que me perdoem os pedagogos, mas nada está mais errado do que esta afirmação (bem… assim a pensar até descubro coisas muito erradas só não sei se mais ou se menos) altero para: que afirmação tão errada (ou será errónea?)
E eu, que tenho um relacionamento de cerca de 2 décadas, consigo perceber que a pessoa que partilha comigo esse mesmo caminho NÃO É MEU…. Assim como ele entende que NÃO SOU DELE… estaremos lado a lado, caminharemos pela mesma estrada, subiremos as mesmas montanhas, mas sempre porque existe algo que, sendo verdadeiramente nosso, nos faz querer estar junto do outro. Porque o que mais feliz nos faz não se compra… está “dentro” de nós e dá-se sem limitações, sem restrições.
E se algo há que eu posso dizer, sem qualquer receio, que é meu está no universo sensorial.
Algo que poderíamos entender como egoísta porque, por mais palavras ou expressões que consigamos usar, nunca conseguiremos transmitir (ou dar a entender) o verdadeiro e real parecer do que sentimos.
Ainda que tudo o que dizem ser MEU (a casa, o carro, o marido… tchiii qu’isto mais parece uma letra de canção pimba) deixe de o ser (e se deixou de o ser é porque realmente nunca o foi) ficará sempre, sempre, o que considero o nosso verdadeiro tesouro: as sensações, as vivências, as lembranças…
E muitas vezes penso que estou no filme errado (o tal mundo ao contrário) em que muitos de nós apenas se limitam a olhar para o próprio umbigo. Em que ainda se ouvem afirmações como.”A MINHA namorada fazer isso? Ai dela!!!” ou algo do género. Em que estaremos a pensar quando afirmamos tal coisa?
E porque alguém já mo disse, e acho magnífico, a melhor forma de TER alguém é tendo a noção de que não a POSSUÍMOS.
E sim, a mais bela flor não é a que está, cuidadosamente, exposta num recipiente vistoso mas sim a que dificilmente enxergamos no meio da natureza… aquela que não ousamos retirar, apanhar, e apenas fica a imagem perpetuada na nossa mente porque é LÁ que fica o que é, verdadeiramente, NOSSO…